Entrevista com Francilene dos Santos Rodrigues

[Entrevista realizada pela discente do 2º ano do curso de Ciências Sociais na Unioeste-Toledo Camila Vicente, com Francilene dos Santos Rodrigues, doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília, pós-doutora pela Universidade de Huelva-Espanha, no Programa de Gênero, Identidade e Cidadania]

As questões são para finalidade acadêmica e foram elaboradas de acordo com o percurso, biografia e identidade do trabalho do entrevistado.

Camila Vicente – Qual foi a sua trajetória nas pesquisas de fronteira?

Francilene Rodrigues – Desde minha entrada na UFRR, com professora, em 1990, venho trabalhando com temas relacionados à fronteira, tanto na perspectiva das abordagens concretas, como simbólicas. Minhas pesquisas iniciais referiam-se as atividades de garimpagem em Roraima, depois garimpagem na Venezuela e Guiana. Trabalhei, em nível de doutoramento, um estudo comparado sobre as concepções de fronteira no pensamento social brasileiro e venezuelano.

As migrações internacionais tem sido meu tema de pesquisa, desde 2006.

C. V – Quais suas motivações iniciais pra estudar as mulheres na fronteira?

F. R – Um dos meus eixos e linhas de pesquisa é migração, gênero e violência. Como militante e feminista a discussão de gênero é um viés em minhas pesquisas. As pesquisas com mulheres vivendo em regiões de fronteira emergem a partir dos trabalhos com brasileiros migrantes para as regiões de garimpos, tanto na Venezuela, como na Republica Cooperativa da Guiana

C.V – Em quais momentos fica mais evidente a diferenciação sexual no processo de migração?

F. R – Desde a decisão de migrar.

C. V – Quais são os fatores que mais impulsionam a migração das mulheres na Amazônia?

F. R – A Amazônia é, estruturalmente, uma região violenta e de violências, principalmente com mulheres, mulheres etnicamente e racialmente identificadas, como indígenas e negras. Desde os tempos colônias, a subjugação das mulheres por meio do rapto, a associação da imagem forjada da mulher indígena e, portanto, amazônica, como lasciva sexualmente, entre outros, são elementos que ajudaram a respaldar tanto as violências institucionais, como as violências no âmbito privado. Muitas mulheres migram fugindo dessas relações patriarcais e violentas. Fogem também das condições de exclusão e desigualdade social as quais são as mais afetadas.

C. V – Como se da o processo de empoderamento da mulher migrante na pan-Amazônia?

F. R – Penso que a mobilidade ou migração favorece, em parte, esse empoderamento à medida que ao reconstruir algumas das relações sociais as fazem em outras bases. No entanto, algumas de minhas pesquisas tem demonstrado que, embora conquistem a autonomia econômica, muitas mulheres, ao restabelecerem as relações sexuais-afetivas voltam a reproduzir as mesmas relações de poder e subordinação, representada pela discriminação de funções, atividades, normas e condutas esperadas para homens e mulheres..

C. V – Que políticas sociais poderiam contribuir para a integração social das mulheres que migram para o norte do Brasil?

F. R – Investimentos em equipamentos sociais, tais como creches já seria de grande ajuda, principalmente às mulheres que necessitam deixar seus filhos com parentes enquanto empreendem o projeto migratório. Política de inserção laboral justa, ou seja, salários iguais para mesmas atividades e funções. Muitas mulheres tornam-se vulneráveis ao tráfico de pessoas para exploração sexual, à prostituição por não vislumbrarem alternativas laborais que lhes garantam uma vida digna; políticas e ações mais efetivas de combate a violência de gênero, bem como de proteção e acolhimento às mulheres vítimas de violência. Apesar da Lei Maria da Penha e diversos avanços nessa área, ainda é muito deficitária a política de combate à violência, agravada pela onda ideológica de extrema direita contrária à suposta ideologia de gênero.

C. V – Quais autoras sobre gênero você utiliza para suas pesquisas e indicaria para quem tiver interesse de seguir por essa área de estudos de gênero na fronteira?

F. R – Citando alguns, começando pelos clássicos:

SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Rearticulando gênero e classe social. In: COSTA, A.de O., BRUSCHINI, C. (orgs.) Uma questão de gênero. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, p.183-215, 1992

SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani; ALMEIDA, S. S. Violência de Gênero: poder e impotência. Rio de Janeiro: Revinter, 1995.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade: Porto Alegre, 1990.

BUTLER, Judith. El género en disputa: El feminismo y la subversión de la identidade. Barcelona: Ed. Paidos Iberica, 2007. 1ª. edição 1990. (1990).20

Mecanismos psíquicos del poder: teorías sobre la sujeción> Madrid: Ediciones Catedras, 2010.

Deshacer el género. Barcelona: Ed. Paidos Iberica, 2006.

BRAIDOTTI, R. Sujetos nómades: corporización y diferencia sexual en la teoría feminista contemporánea. Buenos Aires: Paidós, 2000.

Lo posthumano. Barcelona: Gedisa, 2015.

FEDERECI, Silvia. Caliã e a bruxa: Mulheres, corpp e acumulação primitiva. Trad. Colitivo Sycorax, São Paulo: Elefante, 2017.

C. V – Agosto desse ano foi marcado pela expulsão dos Venezuelanos no município de Pacaraima em Roraima, os imigrantes têm enfrentado barreiras principalmente no que tange crises econômicas, de um lado na Venezuela e de outro no estado de Roraima que decretou estado de emergência diante do crescente fluxo migratório. A questão de uma crescente crise econômica do lado brasileiro é de fato a barreira que impede a ampla aceitação dos imigrantes venezuelanos?

Não apenas isso. Roraima é um estado que depende, quase exclusivamente de recursos federais. A economia centra-se, basicamente no setor.

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